O espetáculo do sucesso: tem empresário confundindo a vida real com o teatro
Por Vitor Soratto
Existe algo fascinante na capacidade humana de interpretar personagens. No teatro, por exemplo, um ator pode passar meses estudando um papel, ensaiando expressões, ajustando a voz e buscando a melhor maneira de convencer a plateia de que aquela história é real.
No mundo dos negócios, aparentemente, alguns descobriram um método mais rápido: abrir o LinkedIn.
Basta uma foto de braços cruzados, um blazer bem ajustado e uma legenda sobre liderança, propósito e expansão de mercado. Pronto! Temos um empresário de sucesso. Se acrescentar um café estrategicamente posicionado e uma reunião com pessoas que ninguém sabe exatamente quem são, a produção ganha ares de multinacional.
É quase uma peça da Broadway, só que com mais PowerPoint e menos ingresso vendido.
A questão não é a vontade de crescer, empreender ou construir uma carreira de sucesso. Pelo contrário. O problema começa quando a preocupação em parecer bem-sucedido supera o esforço de construir alguma coisa de verdade.
No teatro, existe uma diferença fundamental entre o personagem e o ator. O personagem pode ser um milionário, um magnata ou o dono de um império. O ator, por sua vez, precisa estudar para dar credibilidade à interpretação. Não basta entrar em cena usando um relógio caro e anunciar que possui três empresas. É preciso sustentar a história.
No ambiente corporativo, entretanto, parece que algumas pessoas acreditam que o figurino resolve tudo.
O cargo de CEO virou acessório de perfil. A palavra networking ganhou poderes mágicos. E qualquer café acompanhado de uma conversa de vinte minutos pode ser anunciado como uma reunião estratégica para o desenvolvimento de novas oportunidades de negócio.
Reunião estratégica, aliás, é uma expressão extraordinária. Cabe em praticamente qualquer situação. Duas pessoas discutindo uma parceria milionária? Reunião estratégica. Três conhecidos tentando descobrir quem vai pagar a conta? Também pode ser, dependendo da legenda.
E existe sempre aquela promessa de grandes novidades que estão chegando.
Estão chegando há seis meses.
O projeto está quase pronto, a parceria está praticamente fechada, a expansão está sendo estruturada e o lançamento será anunciado em breve. Aparentemente, o mundo empresarial descobriu uma nova unidade de tempo: o “em breve”, que pode durar de três dias a uma eternidade.
No teatro, pelo menos, existe uma data de estreia. Em algum momento, as cortinas precisam se abrir.
Talvez seja justamente aí que a comparação fique interessante. Uma peça não se sustenta apenas com uma boa divulgação. Pode ter cartazes maravilhosos, fotografias impecáveis e uma campanha de marketing brilhante. Mas, quando o público chega, espera encontrar um espetáculo.
A comunicação atrai a plateia. A entrega determina o que ela levará para casa.
Com as empresas, não deveria ser diferente.
Uma marca pode construir uma imagem sofisticada, apresentar números impressionantes e publicar diariamente frases sobre excelência. Mas, se o atendimento não funciona, os compromissos não são cumpridos e as parcerias nunca saem do discurso, a reputação começa a contar uma história bem diferente daquela planejada pelo departamento de marketing.
E reputação, ao contrário de uma publicação nas redes sociais, não pode ser editada tão facilmente.
O mais curioso é que vivemos em uma época na qual o sucesso parece precisar de testemunhas. Não basta conquistar alguma coisa; é preciso fotografar, publicar, marcar pessoas e transformar o acontecimento em conteúdo. Uma conquista que não aparece no feed quase corre o risco de não ser reconhecida como conquista.
O empreendedor trabalha para fazer a empresa crescer, mas também precisa alimentar a narrativa de que está crescendo. O profissional precisa desenvolver sua carreira e, paralelamente, administrar a percepção pública sobre ela. O resultado é uma espécie de espetáculo permanente, no qual todos parecem protagonistas e ninguém quer ser visto durante o intervalo.
Porque os bastidores, convenhamos, raramente rendem boas fotografias.
É difícil publicar o cenário desmontado, a planilha que não fecha, a negociação que não avançou, o fornecedor que precisa receber ou a ideia brilhante que não funcionou. Essas coisas não combinam muito com a estética do sucesso.
Mas fazem parte dele.
No teatro, os ensaios são cheios de erros. O ator esquece falas, o diretor muda cenas e a equipe precisa resolver problemas antes de a plateia entrar. O que diferencia um espetáculo bem construído não é a ausência de dificuldades, mas a capacidade de trabalhar para superá-las.
No universo empresarial, talvez devêssemos valorizar mais essa parte menos fotogênica da história.
A competência nem sempre faz barulho. A consistência raramente viraliza. E cumprir um compromisso pode não render tantos aplausos quanto anunciar uma grande conquista. Ainda assim, são essas atitudes que ajudam a construir relações profissionais duradouras.
Não há nada de errado em investir na própria imagem. Marketing pessoal, posicionamento e comunicação são ferramentas importantes. O problema é quando a imagem deixa de representar o trabalho e passa a substituí-lo.
Afinal, existe uma diferença entre divulgar um espetáculo e viver eternamente no ensaio.
E talvez a melhor estratégia de comunicação seja justamente aquela que não exige uma produção extraordinária para esconder o que acontece fora do enquadramento.
No fim das contas, todo mundo quer ocupar o palco principal. Mas poucos se lembram de que, antes dos aplausos, alguém precisou escrever o texto, construir o cenário, organizar a produção e fazer o espetáculo acontecer.
Na vida empresarial, não é muito diferente.
Porque interpretar um empresário de sucesso pode garantir alguns aplausos. Mas, quando as cortinas se abrem, é bom que exista uma empresa de verdade por trás do personagem.
Foto: Divulgação

