Entrelinhas – O preço da pose
Por Vitor Soratto
Existe uma categoria de sofrimento que a sociedade não apenas tolera, mas faz questão de romantizar: o desconforto voluntário.
É o sapato lindo que aperta o dedinho, a calça que só permite respirar depois de desabotoada e a reunião corporativa que começa às dez da manhã para informar algo que poderia ter sido escrito em um e-mail às 9h47.
Em todos esses casos, existe uma promessa silenciosa de que o sofrimento valerá a pena.
O sapato é lindo. A reunião é estratégica. A calça veste perfeitamente. O encontro foi convocado com urgência. E nós, adultos funcionais, seguimos em frente, fingindo que não estamos a dois minutos de perder a dignidade.
Comprar um sapato apertado é um exercício de esperança. Você experimenta na loja, dá três passos, olha no espelho e pensa: “Vai lacear”.
A frase deveria ser considerada patrimônio imaterial da humanidade, porque representa a nossa capacidade de ignorar um problema presente em nome de uma solução futura que talvez nunca chegue.
O sapato não laceia. O pé cria bolha. E, no fim da noite, você está descalço em algum canto da festa, segurando os próprios calçados como quem carrega as provas de um crime que cometeu contra si mesmo.
No ambiente corporativo, a lógica é muito parecida.
Alguém envia um convite com o título “Alinhamento estratégico”, convoca oito pessoas, reserva uma sala e bloqueia uma hora da agenda coletiva. Na descrição, uma única frase: “Precisamos conversar sobre os próximos passos”.
Próximos passos de quê? Ninguém sabe. Mas todos comparecem.
A reunião começa com cinco minutos de atraso, porque metade dos participantes está tentando conectar o notebook à televisão. Depois vêm os cumprimentos, a pergunta sobre o fim de semana, o compartilhamento de tela e aquele clássico “estão vendo minha apresentação?”.
Quinze minutos depois, alguém finalmente diz o que precisava dizer desde o início.
Era só isso.
Um e-mail resolveria. Talvez até uma mensagem no grupo. Mas não. Era necessário reunir pessoas, interromper tarefas, adiar entregas e produzir uma ata sobre algo que poderia ter sido resolvido antes do segundo café do dia.
E o mais curioso é que ninguém questiona. Afinal, quem somos nós para desafiar uma reunião marcada por alguém cujo cargo termina em “gerência”?
Talvez a diferença entre o sapato apertado e a reunião desnecessária seja apenas o ambiente. Um machuca os pés; o outro, a paciência. Ambos consomem tempo, energia e uma parcela considerável da nossa vontade de continuar socializando.
Existe, porém, uma questão interessante nessa insistência pelo desconforto: por que temos tanta dificuldade em admitir que algo não está funcionando?
Às vezes, compramos o sapato porque ele representa uma versão idealizada de nós mesmos. Não compramos apenas um calçado; compramos a possibilidade de parecer elegantes, sofisticados, bem resolvidos. Mesmo que, no meio do evento, estejamos procurando uma cadeira e calculando mentalmente a distância até o carro.
Nas empresas, também existe uma estética do trabalho. A agenda lotada parece sinal de importância. A sala cheia transmite uma sensação de produtividade. O convite com vinte destinatários dá a impressão de que algo grandioso está acontecendo.
Estar ocupado virou uma espécie de acessório de luxo.
Dizer “estou em reunião” parece mais nobre do que admitir “estou há quarenta minutos ouvindo uma conversa que poderia ter sido resolvida com um parágrafo”. Assim como dizer “preciso me acostumar com o sapato” parece mais elegante do que reconhecer que você comprou o número errado.
Nos dois casos, confundimos resistência com competência.
Mas nem todo desconforto é crescimento. Nem toda dificuldade é necessária. E nem tudo aquilo que exige esforço merece ser mantido.
Há sapatos que não foram feitos para os nossos pés. Há reuniões que não precisam acontecer. Há compromissos que sobrevivem apenas porque ninguém teve coragem de perguntar se ainda fazem sentido.
Talvez maturidade seja justamente isso: aprender a distinguir o que vale a pena suportar daquilo que só estamos suportando por hábito, vaidade ou medo de parecer pouco comprometidos.
Porque a vida já tem desconfortos suficientes sem que precisemos comprar outros por vontade própria.
Da próxima vez que você experimentar um sapato lindo que aperta, lembre-se de que o boleto não vem acompanhado de uma garantia de felicidade. E, quando receber aquele convite de reunião sem pauta, com duração de sessenta minutos e título misterioso, permita-se fazer a pergunta mais revolucionária do mundo corporativo:
“Pessoal, isso não poderia ser resolvido por e-mail?”
Talvez você não salve o mundo. Talvez nem consiga cancelar a reunião. Mas pode ser que, por alguns segundos, alguém se lembre de que o tempo também é um recurso e que ninguém deveria precisar sofrer para provar que está trabalhando.
No fim, o segredo não é aprender a suportar qualquer sapato ou qualquer reunião.
É parar de confundir aquilo que nos aperta com aquilo que nos faz avançar.
E, se nada disso funcionar, pelo menos leve um par de sapatilhas na bolsa.
Para a reunião, infelizmente, ainda não inventaram um chinelo.

