Bem Estar

Trama de ficção mostra futuro sombrio para o Judiciário

O Último Juiz é um convite para uma reflexão sobre o emprego indiscriminado da tecnologia no judiciário brasileiro

Por Renata Prudente

A prosa leve, e apurada, marca o livro O Último Juiz, de Fernando Neves. Em 63 páginas, que o leitor ávido por narrativas estimulantes pode ler de uma só vez, o autor narra uma história de ficção ocorrida num passado recente, que cai bem nos dias atuais. A narrativa gira em torno de transformações do judiciário brasileiro que “evolui” em prol de decisões rápidas e eficazes.

No entanto, o livro vai muito além da previsão de um futuro sombrio que ameaça não apenas o judiciário, mas a democracia e a soberania brasileira. A obra foi lançada em 2025 e discorre em torno de um juiz “raiz”. Ele é um fugitivo “do sistema dominante”, que prima pela ética e luta contra a “desumanização da Justiça”, mas precisa se esconder numa fazenda no Uruguai para preservar sua vida e a causa pela qual ainda luta e arrebanha seguidores.

Ao ler a obra, lançamento da editora Minimalismos, temos a certeza de que as estapafúrdias mirabolantes imaginadas no livro já começaram a acontecer na vida real. Na atualidade, presenciamos por meio da mídia trapalhadas de juízes e sentenças bizarras que deixam escapar imperfeições e desumanidades, muitas delas agravadas pelo uso da IA.

Infelizmente, a tecnologia tem sido usada não como ferramenta de suporte, mas meio indiscriminado para abreviar o ato de pensar ou violar princípios constitucionais. Um deles é o da Inafastabilidade da Jurisdição, previsto no artigo 5 da Constituição Federal de 1988, que garante o Direito de Acesso à Justiça a todos os cidadãos brasileiros.

Obra

A história começa num tempo que não é datado, com um funcionário público que se rende aos ditames e ladainhas de líderes que, com os tempos atuais assemelham-se aos propagandistas e seguidores dos ditames da extrema direita. Este homem foi escalado para executar o juíz protagonista do livro. Este, por sua vez, enclausurado numa fazenda na divisa do Brasil com o Uruguai, é aquele que resiste “à evolução” do Judiciário e algoritmos, que protegem governos, mais favorecidos e “bem-nascidos” – como os executores do cachorro Orelha, em Santa Catarina que foram absolvidos pelo Judiciário local de sua cidade.

O seu esconderijo aparece no livro como uma verdadeira célula de resistência, nos moldes aos grupos que fizeram história na ditadura. O cotidiano dele e do grupo que o cerca é marcado por tensão e códigos que durante a trama mantém o leitor preso do início ao fim. Recheado de humor e sátira, o conto propicia reflexão sobre temas que vão além da tecnologia – TI, segurança, drones, armamento, telecomunicações – e aborda também pensamentos como propósito de vida, alienação, misoginia e fanatismo. Até fake News, que em 2026 requer campo sério de discussão, tem espaço na obra de Fernando Neves.

Autor 

O jornalista Fernando Neves nasceu em 1965, no Rio de Janeiro e mora em São Paulo desde os anos 1990, onde já atuou em redações de veículos como Folha de São Paulo, Jornal do Brasil e Jornal da Tarde. Cronista, a paixão desse tricolor pela escrita que teve início no colégio carioca Pedro II. Pai de filhas gêmeas, ele apura o exercício do conto e da mininovela, seus gêneros do coração, em seu Instagram @fernandonevesescritor e projetos independentes.

Fernando Neves conta que, em Ó Último Juiz (editora Minimalismos) ele quis trazer para a reflexão a automatização extremada e colocar em xeque sua utilidade. Ele questiona “Vale à pena desumanizar um serviço como esse em nome de agilizar?”. 

Foto: Reprodução

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