ESG avança no Brasil
(*) João Roberto Benites
Quando incorporada de forma consistente, a agenda ESG ultrapassa o campo das diretrizes e passa a orientar decisões cotidianas
A incorporação da agenda ESG (Environmental, Social and Governance – Ambiental, Social e Governança) ao cotidiano das empresas brasileiras deixou de ser apenas um movimento reputacional para se consolidar como uma estratégia concreta de geração de valor. Cada vez mais, organizações compreendem que sustentabilidade não se limita a um compromisso ético, mas se traduz em vantagem competitiva, capacidade de adaptação e fortalecimento institucional no longo prazo.
Dados do estudo Panorama da Sustentabilidade 2025, divulgado pela Amcham Brasil, evidenciam esse avanço: 76% das empresas no país já implementam práticas sustentáveis em suas rotinas, enquanto 72% afirmam ter integrado a sustentabilidade ao planejamento estratégico. Os números revelam uma mudança estrutural na forma como o setor corporativo enxerga sua atuação e responsabilidade diante da sociedade.
Ainda assim, o amadurecimento dessa agenda enfrenta desafios importantes. Mais da metade das companhias aponta dificuldades em mensurar o retorno financeiro das iniciativas ESG, o que indica a necessidade de maior sofisticação em métricas, governança e acompanhamento de resultados. A jornada exige não apenas intenção, mas também consistência, planejamento e engajamento interno.
A evolução é inegável. Levantamento anterior da própria Amcham Brasil, no Panorama ESG 2024, já mostrava que 7 em cada 10 empresas brasileiras haviam adotado práticas sustentáveis, representando um crescimento de 24% em relação ao ano anterior. A pesquisa, realizada com 687 líderes empresariais, reforça que o movimento ganha escala e relevância em diferentes setores da economia.
Esse avanço, no entanto, ainda convive com assimetrias. Apenas 48% das empresas utilizam benchmarks externos para avaliar seu desempenho, e somente 39% possuem áreas dedicadas à agenda ESG. O dado revela um hiato entre intenção e prática, em que muitas organizações ainda se encontram em estágios iniciais de implementação, especialmente na estruturação de processos e indicadores mais robustos.
O papel da liderança
Outro aspecto central diz respeito ao papel da liderança. Cerca de 77% dos entrevistados no estudo destacam a atuação dos CEOs como decisiva para a adoção e consolidação de estratégias de sustentabilidade. A liderança empresarial, nesse contexto, não apenas direciona prioridades, mas também influencia a cultura organizacional e o nível de comprometimento das equipes. A adesão aos pilares ESG transforma um negócio. Torna-se parte da cultura da empresa, influenciando desde a área financeira até a tecnologia, com impacto direto na forma como produtos são desenvolvidos, serviços são prestados e relações são construídas.
Ao mesmo tempo, cresce a pressão de consumidores, investidores e colaboradores por posicionamentos claros e práticas transparentes. A construção de confiança passa, inevitavelmente, pela coerência entre discurso e ação. Empresas que conseguem alinhar propósito e resultado tendem a se destacar em um ambiente cada vez mais competitivo. As companhias realinham seus propósitos e geram para valor para sua marca, acionistas e stakeholders.
Como conselheiro de administração e consultivo em companhias de alto desempenho, posso atestar que a consolidação desse movimento aponta para um novo modelo de negócios, em que crescimento e responsabilidade caminham lado a lado. Mais do que uma tendência, trata-se de uma transformação em curso, que redefine a forma de produzir, gerir e se relacionar no ambiente corporativo contemporâneo.
João Roberto Benites –
Preside Conselhos de Administração de empresas familiares. Atua como Conselheiro Consultivo da Grant Thornton Brasil e do Hospital das Clínicas (SP). É conselheiro certificado pelo IBGC, especialista em expansão estratégica de empresas.

