Artigos

Entre Linhas: Entre o RH e o fora

Por Vitor Soratto

Existe uma coisa que o mercado de trabalho e a vida amorosa têm em comum: ambos são capazes de destruir a nossa autoestima com um discurso cuidadosamente ensaiado, acompanhado de uma justificativa que parece fazer sentido até você ter tempo de pensar sobre ela.

Você pode passar meses trabalhando numa empresa, entregando resultados, participando de reuniões que poderiam ser e-mails e sorrindo para pessoas que respondem “vamos marcar” há três anos. Até que, numa terça-feira qualquer, alguém do RH aparece com um convite para uma conversa rápida.

“Você tem cinco minutinhos?”

Pronto. A frase mais assustadora da vida adulta. Mais ameaçadora do que um “precisamos conversar” no WhatsApp e mais suspeita do que um crush que responde “kkkk” depois de você mandar um texto de quinze linhas.

Na sala, a notícia vem embalada em palavras bonitas. A empresa está passando por uma reestruturação. O momento exige decisões difíceis. O seu ciclo está se encerrando. A organização agradece imensamente pela sua contribuição.

E então vem a cereja do bolo:

“Isso não tem relação com o seu desempenho.”

Curioso. Porque, se não tem relação com o desempenho, com a postura ou com os resultados, a gente começa a suspeitar que foi demitido por ter nascido numa terça-feira de Mercúrio retrógrado.

No amor, a dramaturgia é praticamente a mesma.

Você passa semanas conversando com alguém. Troca mensagens até de madrugada, recebe bom-dia, boa-noite, fotos aleatórias e até um “estava pensando em você”. A pessoa demonstra interesse suficiente para manter sua esperança viva, mas nunca o bastante para construir alguma coisa de verdade.

Até que, depois de desaparecer por quatro dias, reaparece com um “desculpa, minha semana foi uma loucura”.

A semana, aparentemente, tinha 28 dias, porque o sujeito conseguiu postar stories, sair com os amigos e compartilhar frases sobre reciprocidade. Mas responder à sua mensagem exigia uma operação logística internacional.

Quando você finalmente pergunta o que está acontecendo, começa o festival de justificativas.

“Você é uma pessoa incrível.”

“Eu gosto muito de você, mas não estou preparado para um relacionamento.”

“Você merece alguém melhor.”

Essa última é particularmente fascinante. A pessoa passa semanas oferecendo o equivalente emocional de uma degustação grátis e, quando você pede o prato principal, informa que você merece um restaurante cinco estrelas.

No mundo corporativo, existe uma versão dessa mesma gentileza: “Você é um excelente profissional, mas precisamos de um perfil diferente neste momento”.

Traduzindo para o português cotidiano: você é ótimo, mas não vai continuar aqui. E, por favor, não faça perguntas que nos obriguem a explicar isso de maneira menos elegante.

O curioso é que, tanto na demissão quanto no fora, raramente recebemos uma explicação que encerre de verdade a história. Recebemos uma narrativa que torne a decisão mais confortável para quem está tomando a iniciativa.

A empresa quer evitar um conflito. O crush quer evitar a culpa. Ambos desejam sair da situação preservando a própria imagem, de preferência deixando você com a impressão de que tudo aconteceu da maneira mais madura possível.

É a comunicação estratégica aplicada ao sofrimento alheio.

É claro que nem toda justificativa é mentira. Empresas realmente passam por reestruturações. Pessoas realmente podem não estar disponíveis emocionalmente. O problema começa quando a delicadeza vira um disfarce para a falta de clareza e a consideração pelo outro se transforma numa maneira de evitar conversas difíceis.

Porque existe uma diferença enorme entre não querer alguém e manter alguém esperando.

Ninguém é obrigado a permanecer num emprego ou num relacionamento que não deseja. O mínimo que se espera, porém, é que a decisão não venha acompanhada de uma coleção de frases vagas, promessas inexistentes e elogios que parecem ter sido retirados de um modelo pronto.

Talvez o mais engraçado, se não fosse tão irritante, seja perceber que passamos boa parte da vida tentando decifrar mensagens que poderiam ter sido muito mais simples.

“Seu contrato será encerrado.”

“Não quero continuar saindo com você.”

Pronto. Duas frases, nenhum PowerPoint, nenhuma reunião de alinhamento e, idealmente, menos três semanas de ansiedade.

Mas nós também temos nossa parcela de responsabilidade nessa novela. Às vezes, preferimos acreditar na versão mais confortável porque a verdade exige uma decisão. Se o crush está apenas ocupado, podemos continuar esperando. Se a empresa diz que foi uma decisão estratégica, podemos imaginar que tudo se resolveria se tivéssemos recebido mais uma oportunidade.

É mais fácil procurar um significado secreto do que aceitar que, em determinadas situações, a resposta já foi dada. Só não veio com a clareza que gostaríamos.

No fim, a vida adulta exige que aprendamos a reconhecer quando uma explicação é legítima e quando é apenas uma embalagem bonita para uma decisão já tomada.

Porque, convenhamos, se alguém precisa de quarenta minutos de reunião para explicar por que você não trabalha mais ali, ou de seis meses de mensagens para explicar por que não quer namorar você, talvez o problema não seja a sua dificuldade de entender.

Talvez seja o excesso de produção para uma história que já terminou.

E, da próxima vez que alguém disser “você é incrível, mas…”, seja no escritório ou no aplicativo de relacionamento, respire fundo.

O elogio pode até ser verdadeiro. Mas preste atenção no que vem depois do “mas”.

É ali que geralmente mora a verdade.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


Notice: ob_end_flush(): failed to send buffer of zlib output compression (1) in /home/eaglenews/www/wp-includes/functions.php on line 5471

Notice: ob_end_flush(): failed to send buffer of zlib output compression (1) in /home/eaglenews/www/wp-includes/functions.php on line 5471