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Sete em cada dez caminhoneiros precisam de prótese dentária, aponta pesquisa da Uesb

Levantamento realizado na BR-116 expõe como longas jornadas e dificuldade de acesso aos serviços de saúde afetam quem vive grande parte do tempo nas estradas

A rotina que mantém cargas e veículos em movimento pelo país também cobra um preço da saúde de quem passa dias ao volante. Pesquisa da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb) identificou que 71% dos caminhoneiros avaliados necessitam de tratamento com próteses dentárias. O resultado revela uma alta prevalência de perda de dentes entre os profissionais ouvidos e lança luz sobre um problema pouco discutido nas estradas brasileiras.

O estudo avaliou 93 motoristas que passaram pelo quilômetro 767 da BR-116, em Jequié, na Bahia. Questionários e exames intraorais foram realizados durante ações do projeto de extensão “Saúde na BR”, mantido pela Uesb há mais de 12 anos.

Por trás dos números está uma rotina difícil de conciliar com cuidados periódicos. Jornadas prolongadas, pouco descanso, alimentação inadequada e acesso restrito aos serviços de saúde foram apontados pelos pesquisadores entre os fatores que interferem no bem-estar desses profissionais. Estresse, tabagismo e consumo de álcool também podem contribuir para o agravamento de problemas que poderiam ser prevenidos ou tratados precocemente.

“Esse dado precisa servir de alerta. Estamos falando de profissionais que passam boa parte da vida trabalhando longe de casa e nem sempre conseguem interromper uma viagem para fazer uma consulta ou manter um tratamento. A saúde não pode se transformar em mais um obstáculo da estrada. É preciso criar condições para que o atendimento também chegue a quem está em movimento”, afirma José Ronaldo Marques da Silva, o Boizinho, presidente do Sindicato Nacional dos Cegonheiros (Sinaceg), entidade que reúne mais de 5 mil profissionais do segmento de transporte de veículos.

A dificuldade ganha outra dimensão quando se considera a natureza do trabalho. Enquanto grande parte da população consegue procurar atendimento próximo de casa ou do emprego, o caminhoneiro pode estar a centenas ou milhares de quilômetros de sua cidade quando precisa de assistência. Tratamentos que exigem acompanhamento e retornos periódicos tornam-se ainda mais difíceis de encaixar na rotina.

A experiência desenvolvida pela Uesb aponta um caminho. Os exames foram realizados em um Odontomóvel cedido pela Prefeitura, equipado com dois consultórios adaptados. Além das avaliações clínicas, os participantes receberam orientações sobre saúde e higiene bucal.

O projeto oferece ainda atendimentos gratuitos de Enfermagem, Fisioterapia, Nutrição, Psicologia e Práticas Integrativas, aproximando diferentes áreas da saúde de uma população que dificilmente consegue se adaptar aos modelos convencionais de atendimento.

“Não podemos esperar que um profissional que cruza estados diariamente tenha a mesma facilidade de acesso aos serviços de saúde de quem trabalha em um endereço fixo. A prevenção precisa considerar onde essas pessoas estão. Estruturas itinerantes, ações periódicas nas rodovias e atendimento em pontos estratégicos podem fazer uma diferença enorme para quem vive do transporte”, afirma Márcio Galdino, diretor regional do Sinaceg.

A pesquisa também evidencia uma lacuna científica. Segundo a Uesb, ainda são poucos os estudos dedicados especificamente à saúde bucal dos caminhoneiros, apesar da importância da categoria para a economia e das particularidades de sua rotina profissional.

Desenvolvido com participação das pesquisadoras Ana Lúcia Cunha, Maria Vitória Santos e Fabiana Paula Aderne, o trabalho recebeu Menção Honrosa no 1º Congresso de Odontologia do Interior da Bahia e foi publicado na Revista Caderno Pedagógico.

Os resultados reforçam que a discussão sobre infraestrutura rodoviária não termina nas condições do asfalto, na sinalização ou na segurança do tráfego. Para quem transforma a estrada em local de trabalho, a existência de pontos de apoio e o acesso a serviços básicos de saúde também fazem parte das condições necessárias para exercer a profissão com segurança e qualidade de vida.

Foto: IA

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