Campanha da ONU alerta para alta mortalidade no trânsito e reforça necessidade de coordenação nacional

A Organização das Nações Unidas (ONU) lançou em São Paulo a campanha #FaçaUmaEscolhaSegura, voltada à redução das mortes no trânsito e à construção de uma cultura de prevenção na América Latina. O Brasil foi citado como um dos países com as maiores taxas de mortalidade viária do continente — 15,7 por 100 mil habitantes —, com motociclistas, ciclistas e pedestres representando cerca de 60% das vítimas.

Durante o evento, o enviado especial da ONU para a segurança viária, Jean Todt, defendeu políticas integradas, com reforço à fiscalização, melhorias na infraestrutura e investimentos contínuos em educação no trânsito. Segundo ele, “o desafio não é a ausência de soluções, mas a falta de articulação para implementá-las”.

O alerta da ONU se soma a dados recentes divulgados pelo G1, que mostram um cenário de desequilíbrio entre o número recorde de infrações e a efetividade das punições. Em 2024, o país registrou quase 75 milhões de multas de trânsito — maior número da série histórica —, mas apenas 290 mil Carteiras Nacionais de Habilitação (CNHs) foram suspensas, o menor índice desde 2013.

Para o presidente do Sindicato Nacional dos Cegonheiros (Sinaceg), José Ronaldo Marques da Silva, o Boizinho, o dado revela um ponto de atenção para as autoridades.

“Os números mostram que há esforço de fiscalização, mas ele precisa ser acompanhado de mecanismos que garantam eficácia nas punições. O trânsito seguro depende da certeza de que atitudes imprudentes terão consequências reais, sempre com respeito ao devido processo legal”, afirmou.

Outro fator apontado como entrave à reversão do quadro é o baixo aproveitamento dos recursos arrecadados com multas. Em 2024, o Fundo Nacional de Segurança e Educação no Trânsito (Funset) arrecadou R$ 810 milhões, mas menos de 7% desse valor foi efetivamente aplicado em ações educativas e de fiscalização.

“É fundamental garantir que os valores arrecadados retornem à sociedade em forma de investimentos em segurança, conforme previsto em lei. O contingenciamento sistemático desses recursos representa uma oportunidade perdida de salvar vidas”, reforça Boizinho.

O presidente do Sinaceg também defende que a estrutura institucional para a segurança viária seja fortalecida, com a criação de uma Agência Nacional de Segurança Viária, com autonomia técnica e foco na articulação entre União, Estados e municípios.

“Assim como temos agências reguladoras para áreas estratégicas como saúde, vigilância sanitária e transporte, precisamos de uma entidade com capacidade de padronizar dados, formular políticas de longo prazo e garantir sua execução em todo o país. A segurança viária precisa deixar de ser tratada como responsabilidade dispersa”, pontuou.

A campanha da ONU tem apoio do Unicef e da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), e destaca que os acidentes de trânsito são hoje a principal causa de morte entre crianças e jovens de 5 a 29 anos no mundo. O Brasil, segundo especialistas, tem avançado em fiscalização eletrônica, mas ainda enfrenta desafios como o uso indevido de veículos registrados por CNPJ para burlar punições e a falta de capacitação adequada entre motociclistas profissionais.

O Sinaceg, que representa milhares de transportadores em todo o país, reforça seu compromisso com a valorização da vida nas estradas e defende medidas que unam prevenção, fiscalização e educação.

 

Foto: Agência Brasil

 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *